04 de outubro de 2021
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Por que não se permitir conhecer novas narrativas?

Por Camila Araujo

 

A recente polêmica envolvendo a Companhia das Letras  sobre uma de suas publicações infanto-juvenis, que aborda e ilustra de forma errônea o tráfico de africanos para o Brasil, despertou o interesse em um debate que já deveria estar recebendo atenção muito antes: o mercado editorial de literatura infantojuvenil.


Não nos surpreende que ainda circulem por aí livros infantis como esse de José Roberto Torero e  este aqui. A verdade é que a falta de representatividade de autores e autoras negros nas grandes editoras e nas estantes de livrarias e bibliotecas desemboca na disseminação de conteúdos disfarçados de educativos, mas que são absurdamente danosos para a formação intelectual e social dos pequenos leitores. 

 

Por consequência do racismo estrutural, que permeia o mercado editorial como um todo, materiais de conteúdos extremamente problemáticos são difundidos. E não dá para dizer que foi só falta de atenção na revisão e na leitura prévia do conteúdo, porque o problema é que, muitas vezes, essas grandes editoras não são diversas em seu corpo funcional e seguem reproduzindo uma lógica branca e eurocêntrica.  

 

Algumas dinâmicas sociais se retroalimentam nesse cenário. A primeira é a ausência de formação básica (e interesse) sobre relações  raciais  e a manutenção de um imaginário socialmente hierarquizado, que impossibilita que se conheça memórias e histórias dos povos afro-brasileiros para além do que está consolidado na historiografia tradicional. Portanto, não podemos esperar nada de extraordinário daqueles que não se importam e nunca se importaram com as histórias e memórias dos povos negros no Brasil.

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A aprovação da lei 10639 despertou o interesse das editoras em publicarem mais títulos de conteúdo etnico racial com objetivo de fornecê-los para as escolas, tendo em vista que para a efetivação da legislação, uma das alternativas seria a inserção de materiais de referência. O objetivo seria, em tese, diversificar os acervos e subsidiar as ações educativas dos docentes. Mas, nesse caso, bastaria a compra de um material qualquer, sem revisão, apuração e conteúdo histórico? Qual o objetivo desses materiais de escrita e ilustrações depreciativas, que narram quase que como um fetiche momentos de subjulgação de negros e negras? Quais impactos causariam na infância? Por que essas perguntas não estão sendo feitas antes da aprovação dessas obras?

 

Sabemos que a literatura tem um papel transformador na infância, sendo responsável pela criação e consolidação de imaginários. Diante disso, é preciso refletir: quais narrativas queremos construir para nossas crianças que já vivenciam o racismo cotidianamente? Acredito que deve ser uma literatura ampla em seu conteúdo, que apresente narrativas que enalteçam as memórias e histórias dos povos afro-brasileiros, que positivem a nossa estética, que falem de sentimentos, subjetividades, propondo questionamentos com base em vivências infantis, para além da mera retratação estereotipada da escravidão. Não há problema em relatar períodos históricos, mas que, então, sejam relatados de forma coerente e com o objetivo de erradicar o racismo, e não o de romantizar o período e desinformar as crianças.  Enquanto fortalecermos e evidenciarmos essas pessoas, elas seguirão falando de nós, sem nós, e o resultado disso já sabemos.

 

Por isso, antes de colocar essas obras nas mãos dos pequenos, é sempre muito importante questionar

Será que todos os livros com temáticas etnico raciais são indicados para trabalhar com o público infantil? Quais autores(as) e editoras publicam sobre esse tema? O que se espera que essas obras proporcionem para as crianças? 

 

E aí deixo aqui questionamentos para você que me lê: quais autoras negras de literatura infantojuvenil você conhece? Sabia que existem diversas autoras que se propõem a escrever sobre muitos lugares? Digo isso porque, também, cria-se o imaginário de que livros infantojuvenis de autoras negras só abordam a dinâmica racial, e claro que isso está implícito nas linhas e ilustrações. Enquanto homens brancos retratam crianças pulando corda em navios negreiros, existem narrativas que mostram a complexidade e subjetividade de meninos e meninas vivenciando suas infâncias, se relacionando etc., obras que teriam efeitos muito positivos na formação psicológica ao transmitir a ideia de que crianças negras podem viver e experimentar tudo. 

 

E digo mais: não há trunfo maior que formar um leitor consciente da sua realidade e com autoestima suficiente para o dia a dia. Acredito que essa potência pode ser proporcionada, sobretudo, por autoras negras, que cansaram de não se ver ou se ver de forma predatória em títulos de livros na infância, e agora propõem romper com as tradições. Por que não se permitir conhecer essas narrativas? 

 

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5 livros de autoras negras para conhecer

 

O comedor de nuvens

Heloisa Pires Lima

No reino dos achântis ninguém passava fome, porque havia abundância de alimento: eles comiam nuvens, que naqueles tempos ficavam bem pertinho do chão. Certa vez, apareceu um comilão no reino que temperava aquele alimento e devorava, sem ao menos apreciar o sabor. As nuvens ficaram esquisitas e começaram a chorar. Choraram ininterruptamente que tudo foi inundado, afastando o Céu e as nuvens da Terra. Com poesia e sonoridade, Heloísa Pires Lima constrói uma narrativa que nos lembra o episódio do dilúvio na Bíblia, ao mesmo tempo em que nos faz conhecer o jeito que o povo achânti explica a distância entre Céu e Terra. Indicado para os anos iniciais do Ensino Fundamental 3º ano e 4º ano.

 


Onde está o Bóris?

Janine Rodrigues

Muita preguiça, um dia de chuva, um gato curioso, e uma menina zureta das ideias. Samantha não imaginava a confusão em que se meteria quando decidiu não fechar a janela de seu quarto. E Belinda se recusou a esperar. E você? Sabe onde está o Boris? O livro acompanha um encarte de atividades com uma proposta incrível de mergulho na história. Uma atividade para fazer em família, na escola, entre amigos e amigas. Recortar, colar, colorir, escrever… atividades manuais com a tecnologia de realidade aumentada.

 


A vida não me assusta

Maya Angelou

Você tem medo de quê? Cachorros bravos, cobras, sapos, dragões soltando fogo? A VIDA NÃO ME ASSUSTA é um pequeno livro de arte para crianças valentes, que enfrentam fantasmas e meninos brigões da escola com a cabeça erguida. Mas se você é daqueles que têm medo até da própria sombra, fique esperto. A VIDA NÃO ME ASSUSTA pode muito bem ser a inspiração que faltava para você trazer à tona toda a sua coragem. É até difícil não se apaixonar por esse livro. Publicado originalmente há 25 anos, e até então inédito no Brasil, A VIDA NÃO ME ASSUSTA reúne os talentos da poeta e ativista Maya Angelou e do artista gráfico Jean-Michel Basquiat. Dois artistas com histórias de vida sofridas e infâncias problemáticas, mas que nunca se deixaram intimidar. Não importa qual obstáculo apareça no caminho, você sempre pode encontrar forças para superá-lo. Então, nada de medo, combinado?


 

Palmas e vaias

Sonia Rosa

Uma mudança é um desafio para qualquer um. Nessa história contada por Sonia Rosa, a personagem Florípedes experimenta as mudanças da adolescência: um novo corte de cabelo, uma dor de dentes, os peitos que crescem e o corpo que estica de uma hora para outra. Além disso, Florípedes enfrenta mais reviravoltas: ela muda de bairro e muda de escola. Ela precisa então fazer novos amigos e conhecer os novos professores, mas se depara com as diferenças e, para superá-las, decide optar pelo amor, pelo carinho e pela atenção de sua mãe.

 


O pênalti

Geni Guimarães

O livro O Pênalti marca o bem-vindo e muito esperado retorno da escritora Geni Guimarães à cena literária. Geni, que em 1990 recebeu o Prêmio Jabuti pelo livro juvenil A cor da ternura, após um hiato de vinte anos, seu último livro publicado foi o livro infantil Aquilo que a mãe não quer (1998), retoma o curso da sua trajetória literária nesta narrativa que conta a história dos irmãos Kamau e Kaiodê, que, apaixonados por futebol, vivem uma situação que os coloca em posições opostas. Nesse novo livro, Geni Guimarães faz uso de suas premiadas habilidades literárias para abordar o que há de mais sensível e tenro nas relações humanas, e, ao representar a família de Kamau e Kaiodê, demonstra que é a ternura, o cuidado, o companheirismo e o amor que ditam as atitudes dos personagens, nos oferecendo um belo retrato de uma família negra que se ama e se cuida.